Tempo Cronológico e Psicológico

O que é o tempo em uma narrativa?
Toda narrativa apresenta acontecimentos que ocorrem em algum momento. Por isso, o tempo é um dos elementos fundamentais de uma história.
Quando lemos uma narrativa, precisamos perceber não apenas onde os acontecimentos acontecem, mas também quando acontecem e como a passagem do tempo é apresentada.
O tempo pode aparecer de diferentes maneiras. Duas formas muito importantes para a compreensão das narrativas são:
tempo cronológico;
tempo psicológico.
A principal diferença está na maneira como o tempo é percebido e organizado na narrativa.
Tempo cronológico → tempo que pode ser medido e organizado objetivamente.
Tempo psicológico → tempo relacionado à percepção, às emoções, às lembranças e aos pensamentos das personagens.
Tempo cronológico
O tempo cronológico é aquele que segue uma sequência que pode ser medida objetivamente.
É o tempo dos:
segundos;
minutos;
horas;
dias;
semanas;
meses;
anos.
Ele pode ser representado por relógios, calendários e datas.
Exemplos:
A aula começou às 7h30.
João estudou durante duas horas.
Maria viajou durante três dias.
O personagem morou naquela cidade por dez anos.
Nesses casos, conseguimos medir a passagem do tempo.
Como reconhecer o tempo cronológico?
Para identificar o tempo cronológico, procure informações que indiquem uma passagem objetiva de tempo.
Podem aparecer:
Horários
às oito horas;
às 15h30;
durante a madrugada.
Dias
segunda-feira;
no dia seguinte;
três dias depois.
Meses
em janeiro;
durante o mês de julho.
Anos
em 2020;
dez anos depois;
durante sua infância.
Duração
durante duas horas;
por cinco minutos;
durante três semanas.
Todas essas informações ajudam a organizar os acontecimentos em uma sequência temporal.
Exemplo de tempo cronológico
Leia:
Lucas acordou às 6h30. Tomou café às 7h e saiu de casa às 7h20. Às 7h40, chegou à escola. As aulas terminaram ao meio-dia.
Observe que podemos organizar os acontecimentos:
6h30 → acordou
7h → tomou café
7h20 → saiu de casa
7h40 → chegou à escola
12h → aulas terminaram
O tempo é apresentado de maneira objetiva e mensurável. Portanto, temos tempo cronológico.
A sequência dos acontecimentos
O tempo cronológico geralmente ajuda a organizar os acontecimentos em uma sequência.
Por exemplo:
Primeiro, Ana acordou. Depois, tomou café. Em seguida, foi para a escola. À tarde, voltou para casa.
Temos uma sequência:
acordar → tomar café → ir à escola → voltar para casa
Esse tipo de organização facilita a compreensão da ordem em que os acontecimentos ocorreram.
Marcadores temporais
Os textos narrativos utilizam palavras e expressões que indicam passagem de tempo.
Essas palavras são chamadas de marcadores temporais.
Alguns exemplos:
antes;
depois;
anteriormente;
posteriormente;
enquanto;
naquele momento;
naquele dia;
no dia seguinte;
horas depois;
alguns minutos mais tarde;
naquela manhã;
naquela noite;
durante a semana;
anos depois;
finalmente.
Exemplo:
Naquela manhã, Pedro saiu cedo de casa. Algumas horas depois, retornou à cidade.
As expressões destacadas ajudam o leitor a acompanhar a passagem do tempo.
7. O tempo psicológico
Agora precisamos compreender um conceito diferente.
O tempo psicológico é o tempo relacionado à percepção subjetiva da personagem.
Isso significa que o tempo não é apresentado apenas como uma medida objetiva. Ele é percebido de acordo com:
emoções;
pensamentos;
ansiedade;
medo;
alegria;
tristeza;
expectativa;
lembranças;
preocupações.
Uma mesma quantidade de tempo pode parecer muito longa para uma pessoa e muito curta para outra.
8. Um exemplo simples
Imagine que você está esperando uma pessoa importante chegar.
Você olha para o relógio.
Passam apenas cinco minutos.
Mas, devido à ansiedade, parece que passou uma hora.
O tempo cronológico é:
5 minutos.
O tempo psicológico pode ser percebido como:
“Uma eternidade.”
Essa diferença é a base do conceito de tempo psicológico.
9. Exemplo em uma narrativa
Observe:
Mariana olhou para o relógio. Fazia apenas dez minutos que estava esperando, mas tinha a impressão de que estava ali havia horas.
Temos dois tempos:
Tempo cronológico
dez minutos.
É o tempo objetivamente medido.
Tempo psicológico
parecia estar ali havia horas.
É a percepção da personagem.
Portanto, o texto apresenta tempo cronológico e tempo psicológico ao mesmo tempo.
10. O tempo psicológico depende da personagem
O tempo psicológico é subjetivo.
Isso significa que depende da maneira como a personagem percebe determinada situação.
Imagine duas situações.
Situação 1 — espera ansiosa
Faltavam apenas cinco minutos para o resultado, mas Pedro sentia que o relógio havia parado.
Os cinco minutos parecem muito longos.
Situação 2 — momento agradável
Quando percebeu, já era noite. A tarde havia passado rapidamente.
Nesse caso, o tempo parece ter passado muito rápido.
Nos dois casos, o relógio continua funcionando normalmente.
O que muda é a percepção da personagem.
11. Emoções e passagem do tempo
As emoções podem modificar a maneira como percebemos o tempo.
Ansiedade
Pode fazer uma espera parecer muito longa.
Os cinco minutos pareciam intermináveis.
Medo
Pode fazer alguns segundos parecerem uma eternidade.
Em poucos segundos, imaginou dezenas de possibilidades.
Alegria
Pode fazer várias horas parecerem passar rapidamente.
A tarde terminou antes que percebessem.
Tédio
Pode fazer o tempo parecer mais lento.
A aula parecia não terminar nunca.
Saudade
Pode fazer uma lembrança distante parecer muito próxima.
Depois de tantos anos, ainda parecia ouvir aquela voz.
12. Tempo psicológico e memória
A memória é um dos recursos mais importantes para a construção do tempo psicológico.
Uma personagem pode estar vivendo uma situação no presente e, de repente, lembrar-se de algo que aconteceu no passado.
Exemplo:
Carlos estava sentado no banco da praça. O cheiro das flores trouxe de volta a lembrança de sua infância. Por alguns instantes, ele se viu novamente correndo pelo jardim da antiga casa.
A narrativa começa no presente.
Depois, a personagem retorna mentalmente ao passado.
Esse retorno é provocado pela memória.
13. Flashback
Quando uma narrativa interrompe o momento presente para apresentar acontecimentos anteriores, temos um recurso conhecido como flashback ou analepse.
Exemplo:
Ana abriu a porta da antiga casa.
A narrativa está no presente.
Naquele instante, lembrou-se da primeira vez que havia entrado ali, quinze anos antes.
O texto volta ao passado.
Depois, pode retornar ao presente:
Ana respirou fundo e voltou a observar a sala vazia.
Temos:
presente → passado → presente
Esse recurso pode ser muito importante em narrativas que exploram memórias e experiências das personagens.
14. Tempo psicológico não significa simplesmente “tempo passado”
Esse é um ponto importante.
O tempo psicológico não é sinônimo de passado.
Uma narrativa pode apresentar acontecimentos do passado utilizando tempo cronológico.
Por exemplo:
Em 2018, Pedro morou durante seis meses em Recife.
Temos uma informação sobre o passado, mas ela é apresentada de maneira objetiva.
Já no exemplo:
Para Pedro, aqueles seis meses pareceram seis anos.
Temos uma percepção subjetiva da duração.
Portanto:
Passado não significa necessariamente tempo psicológico.
O que caracteriza o tempo psicológico é a percepção subjetiva da passagem do tempo.
15. Tempo cronológico e tempo psicológico podem aparecer juntos
Uma narrativa não precisa escolher apenas um dos dois.
Os dois podem aparecer simultaneamente.
Observe:
Eram 23 horas. Fazia apenas quinze minutos que João esperava pela ligação, mas a ansiedade fazia com que aqueles minutos parecessem intermináveis.
Temos:
Tempo cronológico: 23 horas / quinze minutos.
Tempo psicológico: os quinze minutos pareciam intermináveis.
O autor apresenta o tempo objetivo e, ao mesmo tempo, mostra como ele é percebido pela personagem.
16. Diferença fundamental
Podemos resumir a diferença desta maneira:
TEMPO CRONOLÓGICO
É o tempo:
objetivo;
mensurável;
organizado pelo relógio ou calendário;
relacionado à duração real dos acontecimentos.
TEMPO PSICOLÓGICO
É o tempo:
subjetivo;
relacionado à percepção;
influenciado pelas emoções;
associado a pensamentos e memórias;
capaz de parecer mais rápido ou mais lento.
17. Comparando os dois
Tempo cronológico | Tempo psicológico |
É objetivo | É subjetivo |
Pode ser medido | É percebido |
Relaciona-se ao relógio e ao calendário | Relaciona-se à experiência da personagem |
Pode ser expresso em horas, dias, meses e anos | Pode parecer rápido ou lento |
Organiza a sequência dos acontecimentos | Revela a percepção e o estado emocional |
Ex.: “esperou dez minutos” | Ex.: “os dez minutos pareceram uma eternidade” |
18. Um exemplo completo
Leia o trecho:
Às oito horas da manhã, Pedro chegou ao hospital. Sentou-se na sala de espera e olhou para o relógio. Às oito e dez, ainda estava sentado. Às oito e vinte, levantou-se e caminhou até a janela. Eram apenas vinte minutos desde que havia chegado, mas para Pedro parecia que já estava ali havia uma manhã inteira. Cada vez que alguém abria a porta, seu coração acelerava.
Agora vamos analisar.
Tempo cronológico
O texto apresenta:
oito horas;
oito e dez;
oito e vinte;
vinte minutos.
Essas informações podem ser medidas objetivamente.
Tempo psicológico
Pedro sente que:
“já estava ali havia uma manhã inteira.”
A espera parece muito maior devido à sua ansiedade.
Emoção
O personagem demonstra:
ansiedade;
expectativa;
preocupação.
Conclusão
O texto utiliza tempo cronológico e tempo psicológico simultaneamente.
19. O tempo psicológico em narrativas
O tempo psicológico é especialmente importante em narrativas que valorizam:
pensamentos;
sentimentos;
memórias;
lembranças;
conflitos interiores;
reflexões;
ansiedade;
expectativas.
Por isso, ele aparece com frequência em:
contos psicológicos;
romances;
crônicas;
narrativas memorialísticas;
textos autobiográficos.
Entretanto, pode aparecer em praticamente qualquer narrativa.
20. O tempo e o ritmo da narrativa
O tempo também influencia o ritmo de uma narrativa.
Um autor pode gastar muitas linhas descrevendo alguns segundos.
Por exemplo:
A mão se aproximou lentamente da maçaneta. Pedro respirou fundo. Pensou no que poderia encontrar atrás da porta. Hesitou. Fechou os olhos. Finalmente, girou a maçaneta.
Talvez todo esse trecho represente apenas alguns segundos.
Mesmo assim, o autor prolonga a descrição para aumentar a tensão.
Nesse caso, o tempo da história e o tempo da narrativa não são exatamente iguais.
21. Tempo da história e tempo da narrativa
É importante diferenciar:
Tempo da história
É o período em que os acontecimentos realmente se desenvolvem dentro do universo narrativo.
Tempo da narrativa
É a maneira como o autor organiza e apresenta esses acontecimentos ao leitor.
O autor pode:
resumir anos em poucas linhas;
dedicar várias páginas a alguns minutos;
voltar ao passado;
antecipar acontecimentos;
interromper uma ação para apresentar uma lembrança.
22. Exemplo: muitos anos em poucas linhas
Observe:
Depois daquele dia, Carlos mudou-se para outra cidade. Dez anos se passaram. Quando voltou, encontrou a praça praticamente igual.
O texto apresenta dez anos em poucas frases.
O autor fez uma grande passagem temporal.
Esse recurso é conhecido como elipse temporal: determinado período passa sem que seus acontecimentos sejam narrados detalhadamente.
23. Exemplo: poucos segundos em várias linhas
Agora observe:
A porta começou a se abrir. Pedro prendeu a respiração. Pensou em correr. Não correu. A porta continuou avançando lentamente. Ele fechou os olhos.
Podemos imaginar que tudo acontece em poucos segundos.
Entretanto, o narrador dedica várias frases ao momento.
Isso aumenta a sensação de tensão.
24. Aceleração e desaceleração do tempo narrativo
O autor pode manipular o ritmo da narrativa.
Aceleração
Um longo período é apresentado rapidamente.
Os anos passaram e a família mudou-se várias vezes.
Desaceleração
Um pequeno período é apresentado com muitos detalhes.
Durante alguns segundos, Maria ficou olhando para a mensagem antes de decidir se iria respondê-la.
Essa manipulação permite controlar a atenção do leitor.
25. Tempo psicológico e suspense
O tempo psicológico pode ser utilizado para criar suspense.
Imagine uma personagem esperando alguém chegar.
Faltavam apenas dois minutos.
Mas a narrativa descreve detalhadamente:
o relógio;
os sons;
os pensamentos;
a respiração;
os movimentos;
a ansiedade.
Para o leitor, a espera também pode parecer longa.
Assim, a percepção subjetiva do tempo contribui para aumentar a tensão narrativa.
26. Tempo psicológico e conto psicológico
No conto psicológico, o tempo psicológico pode assumir papel importante porque a narrativa está interessada no mundo interior da personagem.
Imagine:
Uma personagem espera o resultado de uma prova.
O acontecimento externo é simples.
Mas o autor pode dedicar grande parte do texto aos pensamentos da personagem:
“E se eu tivesse errado aquela questão? Talvez devesse ter estudado mais. Por que não revisei o conteúdo?”
Enquanto isso, apenas alguns minutos passam no relógio.
A narrativa, porém, pode explorar longamente esses poucos minutos.
27. Tempo psicológico e crônica narrativa
O tempo psicológico também pode aparecer em crônicas.
Imagine uma crônica sobre uma pessoa esperando um ônibus atrasado.
O autor pode transformar uma espera de quinze minutos em uma narrativa divertida ou reflexiva:
O relógio dizia quinze minutos. Meu estômago dizia duas horas. Minha paciência já havia pedido demissão.
Nesse exemplo, o tempo cronológico e a percepção subjetiva aparecem de forma humorística.
28. Como identificar o tempo cronológico?
Em uma questão de interpretação, procure:
horários;
datas;
duração;
sequência de dias;
meses;
anos;
expressões como “duas horas depois”;
“no dia seguinte”;
“durante três semanas”;
“dez anos depois”.
Pergunte:
“Consigo medir objetivamente esse tempo?”
Se a resposta for sim, provavelmente estamos diante de uma referência ao tempo cronológico.
29. Como identificar o tempo psicológico?
Procure:
sentimentos;
ansiedade;
lembranças;
expectativas;
pensamentos;
percepção de que o tempo passou rápido ou lentamente;
sensação de espera interminável;
lembranças que interrompem o presente.
Pergunte:
“A personagem está percebendo o tempo de uma maneira subjetiva?”
Se sim, provavelmente temos tempo psicológico.
30. Cuidado com as questões de interpretação
Uma questão pode apresentar:
“Fazia três horas que João esperava.”
Isso é uma informação objetiva sobre a duração.
Temos tempo cronológico.
Mas observe:
“As três horas pareceram três dias para João.”
Agora aparece a percepção subjetiva.
Temos tempo psicológico.
Portanto, não basta procurar uma palavra relacionada ao tempo. É necessário observar como o tempo está sendo apresentado.



Comentários